Quem é Hige

Hayakawa Yoshikazu, conhecido no meio do bondage japonês pelo apelido de Hige, foi editor-chefe residente da revista S&M Sniper entre maio de 1980 e junho de 1982. Nessa função, ele também acumulou o papel de kinbakushi da casa em diversas produções fotográficas — algo pouco comum, já que a publicação costumava recorrer a profissionais especializados. Depois disso, tornou-se diretor do departamento editorial da Million Publishing e, um ano mais tarde, seguiu carreira autônomo como editor freelancer. Mais adiante, abriria um salão de SM reservado a membros e, com certa relutância, passaria a atuar também no ambiente digital.

A entrevista que origina este texto foi conduzida no próprio salão de Hige, com apoio de Ugo, do SMpedia.com, e tradução final de Yuki Sakurai.

Um apelido com três grafias

O próprio Hige explica a origem do nome: em japonês, há palavras diferentes para bigode e para barba, escritas com kanji distintos. O termo que ele escolheu remete a pelos faciais de modo geral. A adoção do apelido tem relação com a imagem pessoal: nos anos em que dirigia uma publicação, ele era jovem e franzino, e considerava que lhe faltava presença. Deixar a barba crescer foi uma forma de construir autoridade — e o hábito permaneceu quando mudou de editora. Entre colegas de redação ligados ao SM, quase todos eram barbeados; ele foi exceção.

Infância numa loja de quimono

Primogênito de uma família proprietária de uma loja de quimono fundada pelos avós em Koufu, capital da província de Yamanashi, Hige cresceu com a expectativa de assumir o negócio. Essa convivência teve peso decisivo em sua relação com cordas e amarrações.

No dia a dia de uma casa de quimono tradicional, havia o atendimento na frente da loja e o trabalho nos fundos, onde clientes experimentavam conjuntos de trajes nupciais e variações de padrões. Vestir e despir, ajustar o obi e prender o shigoki — a peça decorativa que fica sob a faixa — eram tarefas repetidas muitas vezes ao dia, conforme a estação.

O menino, portanto, cresceu observando corpos sendo vestidos e desvestidos com amarrações, repetidamente. Segundo ele, esse repertório se fixou na infância tanto como algo familiar quanto como algo belo — e também erótico.

Rebelião, política e formação intelectual

Ainda criança, Hige teve aulas com um estudante da Universidade de Yamanashi que era ativista do movimento estudantil dos anos 1960. Foi esse tutor quem lhe apresentou política, literatura de mistério e autores como Sherlock Holmes e Arsène Lupin. O espírito antiautoritário nasceu ali.

Um episódio familiar, por volta dos 11 anos, marcou sua trajetória: ele viu a mãe beijando o tutor. Sem conseguir contar ao pai, sentiu-se culpado e, aos 12 anos, comunicou ao irmão mais novo que pretendia sair de casa e deixar a herança familiar para ele. Mais tarde, definiria a decisão como uma tentativa de preservar a honra da casa — não como rejeição ao conforto em que vivia. Ele afirma que continuou respeitando os pais e mantém contato com o irmão, que às vezes aparece no salão para beber.

Questionado se o movimento estudantil dos anos 1960 se ligava à liberdade sexual e ao SM da época, Hige concorda que havia dissidência nesse campo, mas diz que, no seu caso, o gatilho foi sobretudo a situação com a mãe. Sobre o próprio sadismo, descreve o desejo de amarrar a mulher para torná-la sua, e reconhece aí também uma dimensão de punição que jamais pôde aplicar à mãe. Ele se identifica como feminista e, ao mesmo tempo, como alguém com um sadismo de ordem sexual — e afirma não se considerar "normal".

Universidades, flamenco e o caminho até a edição

Hige passou pela Universidade Senshu, escola tradicional que não correspondia ao que buscava, e depois transferiu-se para a Universidade Wako, trocando Direito por estudos humanos. No período de militância, participou de manifestações, mas abandonou o movimento quando as táticas se tornaram violentas: não queria ferir nem ser ferido.

Durante a faculdade, trabalhou como garçom em um bar de flamenco em Shinjuku. O interesse pela dança vinha do filme Los Tarantos, de Francisco Rovira Beleta, visto no ginásio. O bar era um estabelecimento de luxo, com gorjetas generosas; quando um colega saiu, a namorada dele passou a atender, e os dois chegaram a administrar a casa. O projeto anterior — treinar massagem e tentar a vida na Espanha — nunca se concretizou. Com o falecimento do dono do bar e o fim da ocupação na universidade, ele precisou repensar o futuro.

O ingresso na edição erótica veio pela leitura da revista Erotica, da Misaki Shobo, que ele conheceu no segundo ano da faculdade. Não se tratava de uma publicação pornográfica, mas de erotismo com viés de antropologia cultural e sociologia. Hige telefonou para a editora, falou diretamente com o presidente Munehiro Hayashi e foi contratado. Lá recebeu sua formação básica em edição, publicação e circulação, começando pela área comercial.

S&M Sniper e a criação de um novo padrão

A S&M Sniper circulou de setembro de 1979 a janeiro de 2009. Uma de suas marcas foi justamente abrir mão de um kinbakushi profissional em parte das produções, deixando a amarração sob responsabilidade do editor. O uso de maquiagem especializada e figurinos, incomum em revistas de SM até então, ajudou a publicação a oferecer estímulo novo ao público e a se tornar referência.

Pelas páginas da revista passaram nomes que hoje são consagrados no universo do bondage de corda, como Shikou Shima, Yukimura Haruki e Chiba Eizo; o fotógrafo Araki Nobuyoshi; o escritor Tetsuo Amano; a mangaká Hiraguchi Hiromi; Seki Kazuko, kinbakushi e dominadora que foi "mama" do célebre clube Nakano Queen; Kayama Shigeru, dono do bar SM SAMM e da SAMM Video Company; e modelos como Saotome Hiromi.

Antes disso, Hige já havia sido editor-chefe da primeira edição de Genso to Kaiki (Fantasia & Mistério), quando a Misaki Shobo faliu, em 1973; o título seguiu até o número 12 na empresa-mãe Saigetsu-sha, e ele permaneceu até o número 11. Depois, foi trabalhar na Tsukasa Syobō, ligada à Touen Syobō, onde se publicavam revistas eróticas como SM Fan e Bessatsu SM Fan.

Um percurso sobre contexto e responsabilidade

O relato de Hige é valioso como documento sobre a imprensa erótica japonesa do pós-guerra e sobre a profissionalização do bondage de corda como linguagem estética e editorial. Vale lembrar que práticas de amarração e SM, hoje e sempre, dependem de combinação prévia entre as pessoas envolvidas, definição clara de limites, palavras de segurança e atenção ao cuidado depois da cena — princípios que distinguem prática consciente de qualquer representação irresponsável.

Segurança

  • Texto de caráter histórico e biográfico; não constitui instrução de prática.
  • Qualquer prática de amarração ou SM exige negociação prévia, consentimento contínuo, palavras de segurança e cuidados posteriores.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.

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