# Kazami Ranki: 35 anos de kinbaku, ensino e a arte de amarrar a mente

> Entrevista com o kinbakushi japonês Kazami Ranki, que relembra sua trajetória desde a era pré-internet, a fundação do Circle M's, o aprendizado com vídeos e revistas e suas reflexões sobre shibari, kinbaku e o futuro da arte da corda.

- Tema: História
- Tags: kinbaku, shibari, kazami ranki, japão, história do bdsm, ensino de cordas
- URL: https://bdsm.ersolucoesweb.com.br/a/kazami-ranki-35-anos-de-kinbaku-ensino-e-a-arte-de-amarrar-a-mente
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/kazami-ranki-interview)
- Atualizado: 2026-10-28

## Um veterano da corda

Kazami Ranki é um kinbakushi profissional japonês com cerca de 35 anos de atividade e mais de duas décadas dedicadas ao ensino — não apenas no Japão, mas também em países como Taiwan, Inglaterra, Austrália, Canadá, França e Estados Unidos. Em entrevista ao site Kinbaku Today, publicada em setembro de 2022, ele revisitou sua trajetória, sua metodologia de ensino e suas impressões sobre as transformações da cena.

## Primeiros contatos e a era pré-internet

Natural de uma cidade provinciana ao sul de Osaka, na região de Kansai, Kazami conta que seu interesse pelo SM apareceu cedo, ainda na infância, de forma acidental, ao encontrar material adulto guardado em casa. Já adulto, levou uma vida sexual considerada convencional até os 25 anos, quando decidiu procurar contato com o meio SM. Sem internet, o caminho eram os chamados *teleclubs*: estabelecimentos onde homens e mulheres se cadastravam por telefone e eram combinados entre si. Ele começou usando o serviço para encontros comuns e depois migrou para versões voltadas ao SM.

Sua primeira experiência com cordas foi com uma parceira muito mais experiente que ele. A corda, comprada por conta própria em uma sex shop, era de vinil rígido, do tipo usado em obras, e vinha com um manual de instruções que ele seguiu à risca — sem, segundo ele, alcançar o nível da companheira.

## Shibari amarra o corpo, kinbaku amarra a mente

Sobre a terminologia, Kazami evita obsessões classificatórias. Para ele, é difícil separar os termos com precisão mesmo sendo japonês, mas arrisca uma distinção pessoal: o *shibari* estaria relacionado a amarrar o corpo, enquanto o *kinbaku* diria respeito a amarrar a mente. Já em relação a *nawashi* e *kinbakushi*, ele vê pouca diferença prática — e reconhece que, por privilegiar a dimensão sadomasoquista e psicológica em vez da beleza dos padrões, seria chamado por alguns colegas de *bakushi*.

## Circle M's e o começo do ensino

Em setembro de 1996, aos 34 anos, Kazami fundou o Circle M's — o "M" de masoquista. O grupo nasceu com o objetivo de aproximar homens sádicos e mulheres masoquistas, embora hoje não atue mais como intermediador de encontros.

Para ensinar, precisou estudar mais do que os próprios membros. Apoiou-se no livro *Introduction to the Art of Kinbaku*, da editora Sanwa, e em fitas VHS de referências como Nureki Chimuo, Yukimura Haruki e Randa Mai. Sua maior influência, porém, foi Akechi Denki — que, quando Kazami pediu aulas, recusou: disse que ele já tinha um estilo próprio e que não havia nada a ensinar.

## Osaka, Tóquio e os bares de SM

Kazami relata que o nível técnico em Osaka era inferior ao de Tóquio quando começou, e que desenvolveu suspensões e outras técnicas usando as parceiras da época como modelos. Conheceu Aotsuki há cerca de 25 anos no J Heaven SM Bar, em Osaka — época em que se chamavam pelos nomes reais. Esses bares funcionavam como pontos de encontro e troca de informação, junto com os teleclubs.

## Palcos, performances e técnica

A partir do fim de 2000, passou a se apresentar em clubes SM, casas de strip e teatros *pink*. No teatro Kujo OS, em Osaka, chegou a fazer 20 dias consecutivos, com quatro apresentações por dia — uma necessidade financeira que, ao mesmo tempo, acelerou muito seu aprendizado. Suas performances sempre privilegiaram o ritmo rápido e o desenvolvimento próprio da amarração, incorporando também elementos de sadismo e erotismo, algo que, segundo ele, se aprende justamente com o volume de apresentações.

## Expectativas em relação ao exterior

Fora do Japão, Kazami afirma que ele e outros artistas se sentem obrigados a conter a carga sádica e erótica das apresentações, por receio de mal-entendidos e problemas inesperados. Ele observa ainda que, no próprio Japão, os teatros *pink* vêm sendo pressionados a fechar pelas autoridades.

Entre os artistas que mais o impressionaram, cita Ero Ouji, que nunca quis se profissionalizar, e, entre os profissionais, Akira Naka.

## O futuro da arte da corda

Kazami não arrisca previsões fechadas. Para ele, os tempos sempre mudam, como na música, e o ideal seria que as diversas vertentes — estética, esportiva, meditativa ou erótica — coexistissem com respeito mútuo. Sua expectativa é que o SM e a corda erótica continuem existindo, mas em espaços fechados, e não mais em locais públicos.

## Prática com cuidado

Independentemente da vertente adotada, a corda exige negociação prévia, consentimento contínuo, combinado de palavras de segurança e atenção aos cuidados posteriores. Suspensões envolvem risco real de lesões nervosas e circulatórias e pedem aprendizado progressivo, supervisão e conhecimento de anatomia — pontos que o próprio Kazami associa ao ensino técnico responsável.

## Segurança

- Negocie limites, expectativas e palavras de segurança antes de qualquer prática com cordas.
- Suspensões exigem treinamento progressivo e supervisão: há risco de compressão nervosa e circulatória.
- Combine cuidados posteriores (aftercare) e verifique marcas e sensibilidade nos membros após a sessão.
- Ao aprender por vídeos ou manuais, priorize fontes que expliquem riscos anatômicos e não apenas a estética das amarrações.
