Um debate antigo nos círculos de corda

Poucos temas geram tanta discussão entre praticantes de corda quanto a pergunta sobre se o shibari é ou não uma prática sexual. Segundo o autor do ensaio original, qualquer posição tomada costuma provocar reações intensas e muito pessoais. Ele próprio se posiciona a favor de manter o shibari erótico — não por preferência individual, mas por entender que essa característica está ligada à identidade da prática e à sua história.

Erotismo não é sinônimo de sexo

O ponto de partida do texto é uma distinção conceitual. Erotismo, ali, é descrito como algo que acontece sobretudo na mente: envolve imaginação, fantasia, excitação e intenção. O ato sexual seria apenas uma das formas de expressá-lo, e não uma condição obrigatória. Observar alguém amarrado, imóvel ou reagindo às cordas pode ser profundamente erótico mesmo sem qualquer contato físico. Ver, imaginar, desejar — tudo isso faz parte do campo do erótico.

A partir daí, o autor argumenta que, se o shibari é apresentado como parte do universo BDSM, kink ou fetichismo, precisa manter um componente erótico. É justamente esse elemento que diferencia um interesse comum de um fetiche: admirar flores não é kink; sentir-se excitado por elas, sim.

A história por trás das cordas

O argumento central é histórico. O autor rejeita a narrativa folclórica sobre samurais, técnicas de amarração militar e gueixas, e propõe olhar para a vida das pessoas que construíram a prática.

Ele cita 1925, quando a revista Sunday Mainichi publicou uma série de fotos de Ito Seiu com a modelo Sawara Kise amarrada na neve. Além de ser um dos primeiros registros de bondage erótico no Japão, o episódio teve consequências: Ito foi rotulado como "pervertido" (hentai). A partir dali, dedicar-se à corda erótica passou a exigir sacrifícios.

Esses sacrifícios não foram apenas dos amarradores (bakushi), mas também das modelos que posavam para as primeiras revistas e de quem enfrentava a censura para publicá-las. O texto menciona um debate de 1953 na revista Kitan Club, assinado por Tsujimura Takashi, em que leitores discutiam suas primeiras memórias e fantasias ligadas ao SM — e o quanto essas práticas precisavam permanecer escondidas.

O autor destaca ainda que muitos profissionais não ganhavam dinheiro com isso; escolhiam a prática por paixão. Relata também que os filhos adultos de Akechi Denki só souberam de sua profissão no funeral, e que a família de Nureki Chimuo mantém o local de seu túmulo em segredo. Ao longo das carreiras, amarradores, modelos, diretores e produtores usaram pseudônimos para proteger identidade e reputação.

Para o autor, portanto, praticar corda de forma pública e visível teve um custo pessoal alto — e quem pratica hoje deve parte de sua liberdade a esse grupo.

A corda como meio, não como fim

O segundo argumento é que o shibari não se resume à técnica, à estética das amarrações, à fotografia ou à aprovação nas redes. A corda seria uma ferramenta para dar vida a fantasias e construir uma experiência compartilhada. O desenho da amarração é secundário em relação ao que ela provoca na cena e na relação entre as pessoas.

Daí a crítica à "deserotização": transformar o shibari em "apenas arte" e continuar chamando-o de shibari ou kinbaku, segundo o autor, apaga esses sacrifícios históricos e descaracteriza a prática.

Uma questão de pertencimento

O texto termina com uma nota pessoal: o autor cresceu antes da difusão de informações sobre kink e passou a juventude sentindo-se anormal por não ver seus desejos refletidos na cultura dominante. Ele sugere que quem não vê o shibari como erótico use outros termos — bondage, rope bondage, arte com cordas, corda ocidental, corda decorativa, corda de fusão, corda de inspiração japonesa — e deixe os nomes shibari e kinbaku para quem o pratica nessa chave.

Consentimento e cuidado em qualquer abordagem

Independentemente da posição sobre o erotismo, a prática com cordas exige negociação prévia, consentimento contínuo e combinados claros sobre limites. Palavras de segurança ou sinais combinados são recomendados, assim como atenção a circulação, nervos e articulações. O encerramento da cena pede cuidados posteriores: desamarração cuidadosa, aquecimento, água, conversa e verificação de como cada pessoa está.

Segurança

  • Negocie limites, intenções e palavras de segurança antes de qualquer cena com cordas.
  • Atenção a sinais de compressão nervosa ou circulatória: formigamento e dormência exigem interrupção imediata.
  • Reserve tempo para o pós-cena: desamarração lenta, aquecimento, hidratação e conversa sobre a experiência.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.

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